Ontem talvez tenha sido o dia mais “duro” de toda a viagem: tínhamos um trunfo na manga – uma boleia num barco de pesca espanhol, daqui da Mauritânia até ao Sul de Espanha – e contactos nessa direcção. Chegados ao local, as coisas mudaram de figura e verificámos que é, no mínimo, uma hipótese improvável…
Com apenas 220 euros cada*, e todo o trajecto para fazer por terra até Portugal, chegámos à conclusão que talvez seja hora certa de voltar.
Para nós sempre existiu um ponto “sagrado” em todo este projecto: os 1000 euros. Este “limite” tornou-se a alma da viagem e foi desta forma que chegámos longe em experiências e muito perto do que mais nos interessa – as pessoas.
Assim sendo, chegou o momento de pesar prós e contras e reflectir um bocadinho.
Por um lado…
- o dinheiro está a acabar e ainda temos de fazer todo o trajecto de volta
- chegámos à Mauritânia, “conquistando” territórios completamente novos
- cada experiência foi uma vitória, e temos histórias suficientes para regressar mais-que-satisfeitos
Mas por outro…
- Dakar é, apesar de tudo, a nossa meta pessoal (e ja aparece nas placas da estrada!)
- o dinheiro que resta ainda pode “render” muito
- podemos tentar outras alternativas para um regresso rápido e barato
Os portugueses que encontrámos entre Agadir e Tiznit, que foram até à Guiné-Bissau, falaram-nos de um farol aqui perto de Nouadhibou, no Cap Blanc. Vamos lá hoje – é provavelmente o sítio certo para encontrar algum tipo de iluminação…
E até segunda-feira decidimos: até onde vamos com 1000 euros?
Aceitam-se sugestões.
(* o contador dos 1000 euros vai ser actualizado hoje ao fim do dia)
Sexta-feira, 23 de Maio de 2008
Até onde vais com 1000 euros?
Quinta-feira, 22 de Maio de 2008
Entre a fronteira de Marrocos e a Mauritânia, há 3km do que se chama “Terra de Ninguém”. E a tal estrada doutros tempos, ou o que resta dela, não vê obras desde... desde esses mesmos tempos. Atravessar este bocadinho do deserto é um desafio ao melhor sentido de orientação. Em redor dos vários trilhos e atalhos há carros, frigoríficos e sofás em vários estados de decomposição. Lixo por todo o lado – é que, como diz o nome, este bocadinho do mapa não pertence nem a um país nem ao outro, por isso não há quem se dê ao trabalho de manter o sítio... digamos... limpo. Não há manutenção, não há segurança – não há hipótese.
Dei por mim, enquanto tentava perceber o porquê de tanta porcaria em tão pouco espaço, a fazer um exercício de imaginação. Uma avaria. Um carro cheio de coisas, o motor vai abaixo e não há quem o arranje, porque ninguém pára na Terra de Ninguém. Encontrar um mecânico com passaporte, que se disponha a atravessar uma fronteira para resolver uma avaria, não deve ser fácil. E tendo em conta que a oficina mais próxima fica a 50km, na Mauritânia, ou a 80 do lado marroquino... só o tempo de ir-e-voltar é o suficiente para o carro ser completamente pilhado. Na Terra de Ninguém, não há polícia para ir “apresentar queixa” – e as mesmas pessoas que temem ficar apeadas são as primeiras a aproveitar-se de quem teve o azar de deixar alguma coisa para trás.
No fim das contas, ficam os esqueletos. Fantasmas ferrujentos que são como um aviso: passem com cuidado, mas passem depressa.
by Jorge
Não aceites boleias de estranhos, não andes de bicicleta à noite, cuidado-com-isto, cuidado-com-aquilo... por muito que as nossas mães nos tenham avisado, desde pequenos, é irresistível chegar a este ponto da viagem e não fazer o que fizemos.
E o que fizemos foi esticar o polegar e pedir boleia, noite cerrada, à saída de Bojador, para “despachar” o mais depressa possível os 680km que nos separavam da Mauritânia. Não temos por hábito pedalar à noite, mas fomos às escuras até ao primeiro posto de polícia, a 6km da cidade, e aí nos instalámos à espera que uma alma caridosa nos levasse para baixo.
A noite passou devagar, a lua quase cheia atravessou o céu e mergulhou silenciosamente no mar. Houve tempo para dormir e tempo para conversar, para ouvir música, partilhar cigarros e beber chá. E quando um dos polícias conseguiu uma boleia para nós, já passava das duas da manhã. Bicicletas e bagagem arrumadas em cima do camião, que transportava ácido de baterias para Nouakchott – e nós lá para dentro, encaixados como sardinha em lata com os outros três viajantes.
Apresentações feitas, seguimos viagem. Avançámos 150km... em três horas... e parámos num posto de gasolina, para descansar. Bebemos café às escuras... o céu começou a clarear... e quando achávamos que íamos voltar à estrada,“Vamos dormir um bocadinho...”
Assim foi o resto do percurso. Acordámos às dez da manhã, conformados com a ideia de que tínhamos apanhado boleia do Camião Mais Lento do Sahara. E entre paragens de cinco horas, pausas para descanso e mais uma noite a dormir numa bomba de gasolina, demorámos ao todo 36 horas até chegar à fronteira. Trinta e seis, em extenso para que não haja dúvidas!
Foi uma viagem dentro da viagem. E depois dos últimos 40km numa estrada rodeada por minas e uma paisagem espectacular, eis-nos prestes a entrar num país novo, passaportes no bolso ansiosos por mais um carimbo, expectativas ao rubro porque outras histórias nos esperam.
by Jorge
Arrancámos para o Cabo Bojador de Foum Al Oued – a praia perto de Laâyoune – e tirámos da cartola um recorde de 107km logo no primeiro dia. E foi mesmo da cartola, já que as nossas pernas ainda andavam amolecidas pela vida urbano-sedentária de Tarfaya – casa, escritório, casa, naquele stress que todos sabemos. Mas uma valente nortada deu-nos o empurrão que precisávamos, e fomos à vela com umas pedaladas tipo turbo pelo meio.
Chegámos ao Bojador – uma cidade sem o brilho das outras no Sahara Ocidental – e não conseguimos esconder os sorrisos, à medida que o ego inchava. Finalmente estávamos nesse Cabo que Portugal dobrara, quebrando mitos de monstros marinhos e fazendo história pela mão da sua imensa coragem, audácia e sabedoria. E lá fomos à procura do glorioso passado português.
“Monsieur, vous savez c’est out le Cap Boujdour?”
“Le Cap Boujdour? Quel Cap? Il N’y a pas un Cap ou Boujdour!”
Rimo-nos para dentro, explicámos que éramos portugueses e que concerteza havia um Cabo com esse nome já que os nossos antepassados o tinham dobrado pela primeira vez há 500 e muitos anos, num marco que redefiniria para sempre o curso da humanidade!
“Un Cap ou Boujdour…? Je croix pas…”
Continuámos à procura sem sucesso, ninguém conhecia um cabo na zona – velhos, novos, polícias ou estudantes – e arrancámos cabisbaixos para a infinita sabedoria da wikipedia. Estava lá tudo em detalhe – até imagens de satélite – e espante-se, era mesmo ali a um passo do centro da cidade!
Arrancámos airosos e nas nossas cabeças já podíamos ver uma imensa “boca do inferno”, quem sabe até um monumento a Portugal. Nada mais errado. Chegámos, olhámos à volta, e era uma brochura das Seychelles, com um casal de namorados a fazer um piquenique, e vários barquitos de pescadores a dobrarem calmamente o Cabo Bojador carregados de peixe. Estaríamos no sítio errado? Ainda não sabemos, mas acabámos o dia a “viajar” para o Jardim do Adamastor, no Miradouro de Sta Catarina em Lisboa, com uma cerveja gelada sobre o Tejo. Quando voltarmos, estamos lá!
by Carlos
Quarta-feira, 21 de Maio de 2008
Segunda-feira, 19 de Maio de 2008
De Laayoune ao Cabo Bojador, fomos de bicicleta. Quebramos o nosso recorde - fizemos 107km num dia -, conhecemos um japones que anda ha dois anos e meio na estrada, passamos por interminaveis "operacoes stop"... e chegamos ao Bojador. Depois apanhamos uma boleia de camiao, ate a fronteira com a Mauritania. Uma viagem dentro da viagem!
O novo video eh um apanhado de alguns dos momentos que marcaram esta semana. Ainda eh uma "versao desenrascada" :)
Domingo, 18 de Maio de 2008
Estamos na Mauritania!
Estamos cansados, foram 48 longas horas desde o Bojador até aqui. Viemos no Camiao Mais Lento do Sahara, depois de varias horas a pedir boleia junto a um posto de policia marroquina, a noite, a ouvir Mika e Madonna e outros hits do momento.
Conhecemos na fronteira o Joaquim, de Portimao, que tem casa aqui em Nouadibou... e que nos convidou para ficar com ele.
Vamos descansar, amanha actualizamos todas as novidades.
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
HELP!
Parece de propósito.
Ontem à noite publicámos a história do nosso encontro com o Stephan, há quase um mes. E agora mesmo recebemos um e-mail dele... fica aqui transcrito - e se algum BTTista puder ajudar, óptimo.
for serious mountainbikers from portugal, please translate the invitation. Or tell them to mail me or my forum in english :)
My trip is stuck in marakesh atm since my oh-so-hightec bike broke for good (freewheel died). I cannot get the required parts in morocco, so will probably take a train to tanger tonight and then try my luck in spain. Good luck in deep africa!<br>
O e-mail do Stephan é stefan@stuntz.com
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
O Zorro dos Alpes
A viagem chama-se "The Snake: von La Palma zum Gardasee" e tudo o que não tenha inclinação é para ele um longo bocejo - o nosso trajecto, provavelmente, um sono profundo. Tem a bagagem contada em gramas, dorme ao relento e não traz kit cozinha. Nem uns bolinhos para a travessia do deserto!
No dia seguinte, veio ter connosco meio descalço a perguntar se lhe tinhamos feito uma praxe de cicloturista e roubado um dos ténis - com 21 gramas e sola de titânio. Acabou por ser o Jorge a seguir vários rastos de cão, até encontrar o sapato largado à beira da estrada... quase uma hora depois!
Quando se está em viagem, encontram-se sempre viajantes muito mais loucos e arrojados que nós, e se por um lado é um alívio pois sentimo-nos logo com alguma sanidade e bom senso; por outro torna-se um "perigo", pois são sempre estes quem mais nos inspira. Dormir ao relento e viajar leve como uma pena? Não é má ideia...
As aventuras do Stephan estão em www.alpenzorro.de
Momentos - Tarfaya e Laâyoune (Foum al Oued)

Degradé, da esquerda para a direita: Mohammed, Ashraft, Walid e Carlos. O Mohammed é o John Cleese do grupo, sempre pronto a arrancar gargalhadas de todos. Vai ser difícil esquecer a sua gargalhada "Diabolo", ou as "jokas" (anedotas) de burros, leões e somalis. O Ashraft, mais reservado, pedia-nos para baixar a música quando se ouvia o chamamento da mesquita. E é o campeão dos lanches, com bolinhos e leite de cabra, queijo feito em casa, pão com azeite e mel... e um mini-secador para atiçar as brasas do chá! O Walid é o pinga-amor, neto de um campeão de boxe e fã incondicional de Regaton - e tem histórias mirabolantes de namoradas disfarçadas de homem em passeios nocturnos na praia.São o núcleo duro do nosso gang de Tarfaya

Les amis de Tarfaya: nesta temos o Carlos à esquerda, depois o Mohammed, Youssef, Jorge e Wadia. O Youssef quer ser pescador, mas por enquanto só pesca para as fotografias. E sonha em ir para as Canárias, onde tem um irmão. O Wadia tem um pequeno cyber e uma mercearia. Ele foi o primeiro a tentar arranjar-nos o computador... mas com o sucesso que já se sabe.
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
Só faltava esta!

Vem de longe, a ideia. A primeira vez que falámos em fazer uma fotonovela foi em Puerto de Santa Maria - mas daí a concretizar, passaram muitas pedaladas. E foi em Tarfaya, numa noite de inspiração, que voltámos a falar sobre isto. Na manhã seguinte acordámos com ganas de fotografar... mas o destino trocou-nos as voltas quando o Assalama encalhou, ali à mão de semear - ou melhor, de filmar. O photo-shooting para a fotonovela acabou por ser feito ao longo de vários dias, mas o resultado é um bom exemplo do que foram "os dias de Tarfaya".
Esta semana não há video. O computador continua meio-empenado, e não há maneira de conseguirmos editar os filmes... mas fica a fotonovela. Decidimos continuar a avançar e não nos prendermos com um problema - o mais certo é que se resolva, inchalah, seja onde for. Por isso, que seja mais lá para baixo. Como diz o provérbio japonês, e corrijam-nos se alguém souber a versão correcta, "quanto mais puxas água de um lago, maiores as ondas na direcção contrária".
A vida continua - tal como as histórias, os momentos, crónicas e todo o material que normalmente deixamos aqui no blog. Quanto aos filmes, assim que pudermos editar alguma coisa, pára tudo e é a primeira coisa que aparece aqui. ;)
Domingo, 11 de Maio de 2008
Vamos a números

Cumprimos hoje 81 dias de viagem – um número que, à primeira vista, não parece digno de grandes dissertações. Mas hoje é também o dia em que ultrapassámos as 50 mil visitas no blog. E não posso esconder a minha alegria em atingir esta “meta”, quando estamos prestes a entrar na fase derradeira da viagem.
Para dois viajantes crónicos como nós, realizar um projecto de comunicação em torno de uma aventura teve, desde a partida, tanto de desafio como de sonho realizado. Quem diria que, aquilo que era para ser um ensaio para outros “vôos”, acabaria por ganhar asas, ultrapassando todas as nossas expectativas?
Na noite em que dormimos no ringue de boxe, em Benafim, o Deni deixou-nos usar a internet do Clube – e ao vermos o número de visitas que o blog já tinha, fizemos umas contas por alto. Lançámos, meio-brincadeira meio-desafio, os 50 mil views como a marca que gostaríamos de atingir – ou pelo menos de nos aproximarmos – quando o projecto acabasse.
Ainda não acabou – e é muito cedo para lançar foguetes. Correndo o risco de parecer pretensioso – mas longe disso! – a verdade é que já pedalámos 1568km, mais 734 em 2 autocarros e 154 num par de boleias. Para mim, e a minha opinião vale-o-que-vale, :), é uma pequena vitória. Um total de 2456km, muitas histórias, encontros, momentos inesquecíveis... e temos tanto pela frente (a começar pelo Cabo Bojador, a nossa próxima paragem, inxalah).
Amanhã começa, definitivamente, uma nova fase. Estamos a poucos dias de entrar na Mauritânia, quase a cumprir 3 meses de viagem, e gastámos praticamente 700 euros cada – já falta pouco!
Falta pouco para decidirmos até onde vamos com 1000 euros – e ainda temos que voltar.
by Jorge
Sexta-feira, 9 de Maio de 2008
New Look
Mudámos as polaroids de boas-vindas, e o tema da nova estação é "Deserto". Esperamos que gostem.
Uma mudança de visual foi o que ontem à noite nos aconteceu, quando nos vimos descalços, sem saber onde estávamos, numa rua escura de Laayoune. E porquê? Lembram-se de termos finalmente "quebrado o gelo"...?
Vamos por partes: primeiro um esclarecimento, porque parece haver um mal entendido no blog, pelos comentários que temos lido. As raparigas que apareciam nos últimos Momentos (e que tivémos de apagar, a pedido delas) não são as mesmas com quem "quebrámos o gelo". Essas, além de serem mais velhas, também não nos deixaram publicar as fotografias aqui (como já se estava à espera, infelizmente). Ficam para mostrar aos amigos, quando chegarmos a Lisboa.
E por falar nas fotos que tivemos de tirar, fica aqui o email delas, na íntegra, curto e grosso: "plize face protogfo fige is image is proplim is prather". Para mais esclarecimentos, não hesitem em contactar-nos. ;)
E agora a mais recente peripécia. Fomos convidados pelas nossas amigas para um serão na sua casa de Laayoune, uma vez que os pais tinham ido para uma festa no deserto. Eis senão quando, cinco minutos depois de termos entrado em casa, estávamos a dançar músicas árabes na sala, alguém toca à campainha.
Foi tudo muito rápido: praticamente sem perceber como, fomos expulsos pela garagem, e só uns minutos depois nos vieram dar as meias e os sapatos. E para que não haja mais mal-entendidos, estávamos descalços porque é costume tirar os sapatos nas casas muçulmanas!
Quanto à campainha: uns tios tinham resolvido fazer uma visita-surpresa, e por muito que as miúdas insistissem que não estava ninguém em casa, eles não arredaram pé. E eis-nos na rua, a trocar mensagens com elas até percebermos que a festa acabou definitivamente; e a telefonar ao filho do sócio do sr. António, para nos vir buscar vá-se-lá-saber-onde.
Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
Aula de ingles
Ontem acabamos no Instituto de Superior de Ciencias e Estudos Tecnologicos de Laayoune, no ultimo folego para ressuscitar um computador que se tornara numa maquina com vida propria, crises de identidade e flutuaçoes de humor.
Fomos recebidos de braços abertos e acabamos em mais uma permuta (esta espontanea pois nao nos iam cobrar nada) : um computador fresco como uma alface a troco duma aula de conversaçao em ingles. Estivemos duas horas numa especie de mesa redonda, moderada pelo professor, a falar dos mais variados assuntos, sem tabus- viagens, religiao, George Bush, Sahara Ocidental, os sonhos dos jovens Marroquinos, os nossos, a mulher no mundo arabe. E ainda nos levaram numa visita guiada a Laayoune. Bela permuta sim senhora!
E por falar na condicao da mulher no mundo arabe, hoje tivemos que apagar as duas fotos dos momentos Tarfaya onde apareciam as nossas "amigas do cyber cafe" (finalmente tinhamos conseguido "autorizaçao" para publicar fotos de amigas no blog). Ao que parece os pais é que nao acharam muita piada a tamanha exposiçao e recebemos um mail delas nesse sentido.
Continuaremos a tentar!
Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
Laayoune
Ja estamos em Laayoune, 100 km mais perto da Mauritania. Enviamos mais noticias brevemente.





















