“Ainda me lembro quando íamos de bicicleta para a Marinha Grande com o Vareta, o Canhão e o Varojo que era irmão da gaja que fazia rissóis, a coxa. Lembras-te ó Quim?”.
Foi preciso o primeiro furo na minha bicicleta, ainda em Leiria, para podermos ouvir as deliciosas histórias do Sr. Adelino. Desde a infância pobre, ainda nos anos trinta – “na altura da fome”, em que ia para a escola descalço e fumava mata-ratos “para aquecer os pés”, à juventude irrequieta marcada pelos desamores com a Nelinha, filha de homem rico (que vendia bois, batata e feijão nos mercados) e menosprezou a sua dignidade apenas por ser pobre, até aos sete tiros cravados recentemente nas paredes sujas da garagem, “por um gajo que me acusou de lhe meter os cornos!”
"E era verdade Sr. Adelino?"
“Claro que sim! A ele e muitos mais!”
Há furos que vêm por bem, foi o pensamento do dia.
Ao segundo furo, à saída da casa da Dina das Dunas, sacámos uma interessante lição de mecânica ao Alexandre, ciclista experiente e engenheiro mecânico. Pensamento positivo! Mas já outro? Começa a ser estranho.
O recorde de Lisboa - Dacar foi igualado em Aveiro! Acordámos ressacados de manhã, com o pneu vazio. E um recado de revolta nas bicicletas, que por sinal tínhamos deixado encavalitadas a tapar uma tampa de electricidade no prédio… vingança ou pura coincidência? E porque não a do Jorge, para variar? Mas que abuso!
Chegámos a Lamego e o pneu (agora o de trás) está em baixo. Enche-se e passado um km… rebenta com estrondo! Se fosse numa descida ia de certeza ao chão. Que sorte! Sorte? Pela primeira vez tenho vontade de torcer uma bicicleta. Mikelina volta, não gosto desta!
Mais uns km e mesmo em frente a um mecânico, outro rebentamento…
“Talvez um vidrito, que o pneu está rasgado de lado!” – explica o senhor.
No dia seguinte o sexto furo! De Lisboa a Pinhão, os mesmos que as bravas Mikelina e Penélope, juntas, até Dacar! Nossa Senhora da Estrela, onde andas? Um mecânico com olhos atentos mostra-me um micro filamento de aço, do tamanho de um pêlo, que andava a fazer estes furos todos no pneu da frente… Diz ele… Será?
Já igualei, sozinho, o recorde de furos que ambos tivemos no ano passado. Será que ainda vou (ou vamos) ultrapassar os seis furos da Penélope e da Mikelina?
by Carlos
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Mas que abuso!
terça-feira, 8 de julho de 2008
Chegaram os Super Colas
São cinco e meia da manhã - chegámos. Um bocado cansados, como é de esperar. A viagem de Casablanca para Lisboa correu bem, como seria de esperar com algumas surpresas. Desde marroquinos que se infiltraram ilegalmente nos eixos dos camiões (foram apanhados já em Espanha) a refeições à borla no ferry, que também não custou um tostão... foi mais uma viagem para recordar.
Antes de mais, um agradecimento: ao sr. Gabriel, que com um entusiasmo genuíno se juntou ao nosso projecto, disponibilizando dois lugares nos camiões da STA.
Quando chegámos a Benedita, tínhamos uma equipa da RTP à espera - e como colas profissionais que já somos, cravámos logo uma boleia até Lisboa. Os últimos 80km de viagem passaram a correr - e aqui estou, em casa. O Carlos seguiu para casa dele, a viagem acabou.
Mas o blog não se fica por aqui. Há ainda o video da chegada... e agora que voltamos a ter acesso a um computador de jeito, vamos editar alguns dos filmes que gostaríamos de ter feito durante a viagem. Ou seja: nas próximas semanas vamos ter muitas surpresas.
E ainda... as votações para os Blog Awards! Esta semana vamos começar a fazer campanha, mas não é preciso esperar pelo último dia para votar. Aliás, quanto mais depressa melhor, a ver se entramos já no top 5 do ranking.
Agora vou dormir - na minha cama!
by Jorge
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Quanto à viagem propriamente dita: confesso que a decisão de continuar não foi muito dolorosa. O dilema, contudo, era real. O orçamento está a chegar ao fim; mas há o sonho de atingir Dakar. Fomos à procura de iluminação no farol de Cap Blanc – avariado! E numa viagem com tantos barcos encalhados, a última coisa que apetecia era tomar uma decisão tão importante à vista daquele que estava ali ao lado.
É verdade que não há sonho que não possa ser adiado para se honrar um compromisso... mas voltar para trás agora ia deixar um travo amargo, quando o resto da aventura tem sido tão doce. Sentimos isso na viagem de comboio para Zouérate. Por muito concentrados que estivéssemos nos "filmes" que assistimos dentro da carruagem, foi inevitável olhar para fora, pela janela ou debruçados na porta, e perder-nos em pensamentos enquanto o deserto passava. Quem já viajou de comboio conhece o efeito de uma paisagem a passar, ao som dos carris, embalada no movimento da carruagem: uma nostalgia imensa, cheia de sonhos, sorrisos e histórias.
Os comentários no blog foram o incentivo que faltava. Tenho de confessar: quando lemos as reacções, ficámos os dois de peito-cheio. Parecíamos dois putos, a ler em voz alta um para o outro, as pessoas a olhar para nós sem perceber nada – e nós a rir da primeira à última palavra.
Não vamos disponibilizar o NIB – muito obrigado pela ideia, a sério, mas não é essa a solução que procuramos. E não é por teimosia ou por semos “mal-agradecidos”: mas porque os mil euros são para nós um símbolo. O símbolo de que é possível realizar muito, com poucos recursos. Da mesma forma que não somos desportistas profissionais nem temos visão raio-X e outros super-poderes.
Dakar está à vista. De Nouadhibou à capital do Senegal são menos de 1000km, é um saltinho. Vamos já despachar uns 400, à boleia numa camioneta, e o resto (inchalah) pedalamos. A rota programada – não é costume fazermos futurologia neste blog, mas as regras são para se quebrarem – é Nouankchott, Rosso, Saint Louis e Dakar.
E se no regresso tivermos de pôr mais 50 euros para o ferry – espero que não seja preciso, acredito mesmo que não – mas se fôr, azar. Não é por aí que o projecto morre. Símbolos são símbolos – são bandeiras, são mensagens.
by Jorge
Ao meu lado dormia um mauritano (décima foto dos momentos) que assim que pregou olho começou a aquecer os seus pestilentos dedos do pé debaixo das minhas coxas. Não obrigado, e degladiei-me toda a noite numa insónia com forte cheiro a chulé. Levantei me para ir à casa-de-banho: não tem porta, água ou luz mas uma vista privilegiada para o deserto dum janelão sem vidros. O chá da manhã é servido por um velhote que montou o “restaurante” (foto 11) sobre uma manta de pó, fungava com ajuda de dois dedos enfiados nas narinas, lavava o tacho com esses mesmos dedos, e um bocado de água que saía preta ao primeiro contacto. As quatro geladeiras que guardavam os seus “frescos” mantimentos, a cada salto de carril espeliam potente cheiro, como se tivessem ficado esquecidas do Verão anterior, com os restos duma sardinhada.
Pode isto ser uma epopeica e imperdível excursão ao Sahara? Valeu a pena fazer um desvio à rota, gastar mais uma porção do nosso magro orçamento para sofrer tanta agressão nazal? Sem dúvida que sim! É que o único sonho que temos com cheiro a OMO é a primeira noite de sono em Lisboa. Em viagem os sentidos mudam e o que procuramos são filmes distintos, são as pessoas como elas vivem, e a noção de conforto vira-se, sem esforço, de pernas para o ar.
E ainda acabámos em casa do Sidi, no meio da sua família, a beber chá e esparramados por almofadas no chão, num dolce fare niente que abunda nestas paragens.
Com a luxuosa possibilidade de prolongar este repuxo de memórias por mais uns tempos, mesmo pondo em risco a meta dos 1000 euros, as nossas vontades decidiram em uníssono: vamos até Dakar!
domingo, 11 de maio de 2008
Vamos a números

Cumprimos hoje 81 dias de viagem – um número que, à primeira vista, não parece digno de grandes dissertações. Mas hoje é também o dia em que ultrapassámos as 50 mil visitas no blog. E não posso esconder a minha alegria em atingir esta “meta”, quando estamos prestes a entrar na fase derradeira da viagem.
Para dois viajantes crónicos como nós, realizar um projecto de comunicação em torno de uma aventura teve, desde a partida, tanto de desafio como de sonho realizado. Quem diria que, aquilo que era para ser um ensaio para outros “vôos”, acabaria por ganhar asas, ultrapassando todas as nossas expectativas?
Na noite em que dormimos no ringue de boxe, em Benafim, o Deni deixou-nos usar a internet do Clube – e ao vermos o número de visitas que o blog já tinha, fizemos umas contas por alto. Lançámos, meio-brincadeira meio-desafio, os 50 mil views como a marca que gostaríamos de atingir – ou pelo menos de nos aproximarmos – quando o projecto acabasse.
Ainda não acabou – e é muito cedo para lançar foguetes. Correndo o risco de parecer pretensioso – mas longe disso! – a verdade é que já pedalámos 1568km, mais 734 em 2 autocarros e 154 num par de boleias. Para mim, e a minha opinião vale-o-que-vale, :), é uma pequena vitória. Um total de 2456km, muitas histórias, encontros, momentos inesquecíveis... e temos tanto pela frente (a começar pelo Cabo Bojador, a nossa próxima paragem, inxalah).
Amanhã começa, definitivamente, uma nova fase. Estamos a poucos dias de entrar na Mauritânia, quase a cumprir 3 meses de viagem, e gastámos praticamente 700 euros cada – já falta pouco!
Falta pouco para decidirmos até onde vamos com 1000 euros – e ainda temos que voltar.
by Jorge
sexta-feira, 21 de março de 2008
Não é por isso que vou esquecer a hospitalidade da Astrid e do Ricky, ou a surpresa que se revelou o nosso passeio a El Rocio, ou qualquer dos kms pedalados em Espanha – mas hoje completa-se 1 mês desde que apanhámos o primeiro ferry, em Lisboa, e não consigo evitar uma espécie de balanço.
Oiço o chamamento à oração, nos altifalantes de uma mesquita mesmo aqui ao lado, e lembro-me de todas as coisas que ainda estão para vir. Mas o que já passou...
4 semanas! Como descrever, numa só crónica, 1000km nas pernas? Cada pedalada é uma vitória, a cada km vamos conquistando um sonho – o nosso sonho! – e não há palavras que descrevam isso com justiça. A partida, as primeiras pedaladas até Setúbal, a chegada ao Algarve e a sensação de passar a primeira fronteira: pequenas conquistas diárias que se prolongaram durante 1 mês, e quase sem darmos por isso estávamos a embarcar no ferry para Tanger.
Lembro-me da noite em que, após quase 2 anos a tentar “vender” outros projectos a possíveis patrocinadores, decidimos fazer qualquer coisa por nossa conta. Uma viagem de carro, por Marrocos, até ao Senegal... quem sabe Mali. Era o momento certo para filmar, escrever e tirar fotos, reunir material para mostrar o tipo de coisas que queríamos fazer. Mas não tínhamos muito dinheiro.
“E se fôssemos de bicicleta?”, perguntou-me o Carlos. Eu respondi que sim, meio-a-brincar, mas com a certeza de que se fosse esse o caminho, era mesmo esse. Tínhamos 1000 euros cada – e numa só noite, o que começou por ser uma limitação, transformou-se no nosso “ponto de honra”. Fizémos um pacto de silêncio, para não acharem que éramos doidos, e só começámos a contar aos amigos quando tivémos a certeza que íamos mesmo. Daí ao Terreiro do Paço foi um instante.
Dakar é um objectivo pessoal. Onde os 1000 euros nos levam – esse é o verdadeiro desafio. Ainda acredito que conseguimos chegar ao Senegal, mas se essa meta já era secundária, agora é só um pormenor. Não interessa até onde vamos, no fundo nem interessa saber com quanto vamos – o mais importante, a mensagem que queremos passar, é reconhecer um copo meio-cheio em vez de meio-vazio, bebê-lo de um trago e sorrir. Porque até meio-copo-de-água pode matar a sede.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Porque que razão imprimem este título no rótulo se em todas as três latas encontramos apenas duas tísica e defareladas rodelas, numa tristeza de fava em bolo-rei?
O facto é que, nas mudanças da pobre Mikelina, vem escrito um guerreiro e norte-americano “Ranger” e ainda mais bizarro, na capa da minha tenda estamparam um megalómano T2!
Ao Sr. Marketeer que teve esta triste e enganosa ideia digo-lhe por experiência própria que onde está T2 deveria escrever:
”Habite neste esconço de um passo quadrado, sem janelas ou veluxes, mas com uma porta de zippo que ao abrir exala um violento condensado de cheiro a queijaria e bafio.”
E se esta descrição for um previsível flop com direito a ser esbofeteado por uma gravata às bolinhas ou bezuntado em gel e coberto de post-its, acrescente-lhe:
“Dentro deste passo quadrado, de chão torto e sem colchões Picolin, pode caber uma viagem do tamanho do mundo, a par duma mão cheia de sonhos que o vão embalar, suavemente como a avó ao berço. E vai adormecer profundo... como um tronco.”... Zzzzzzz ....
quarta-feira, 5 de março de 2008
Pit Stop 1 - Silves
Chegado a Silves e derreado no sofá, sinto as pernas mais duras que um presunto serrano e uma peganhenta película no corpo do muito suor, lágrimas e subidas para um único banho (sem ser à gato) que tivemos. Tempo para uma mini gelada, desentupir a goela e o jorro de flash backs dos dias que passaram.
Quem corre por gosto não cansa, e o tamanho destes "desconfortos" a par duma meta longínqua, vira-nos a realidade de pernas para o ar. No topo destes pensamentos está o Sr. Armindo, um divertido bombeiro que me mergulhou- depois de 3 anedotas e um moscatel - numa autêntica brochura de Spa de luxo. Sem toalhas pela anca, sinos tibetanos a vibrar nos chacras ou outras técnicas complicadas. No meu caso este prazer intenso saía da boca dum chuveiro dos balneários do Quartel dos Bombeiros de Sto André. Todo um spa a deslizar dum cano, de graça, o prazer senti-o até ao tutano, e ainda tive tempo de beber mais um moscatel e rir-me com as anedotas do Sr. Armindo.
O limite dos 1000 euros tem-se mostrado o nosso maior tesouro - pelas portas fantásticas que nos abre, pelos caminhos robustos em histórias e vidas que nos leva a percorrer. Fantastique!
by Carlos
Um holandês no cimo do monte
Tínhamos acabado de subir 3km de estrada, numa inclinação de 10%, sempre a empurrar as bikes. O sol ria-se nas nossas costas, as nuvens ainda tentaram tapá-lo, mas só por momentos. Ao chegar ao topo do monte, estávamos estafados - e a precisar de uma boa hora de repouso.
Vimos aquela árvore e não foi preciso dizer nada. Sombra!
Até parecia que tinhamos marcado encontro. A meio do picnic, aparece um carro vindo do nada, encosta à berma e estaciona perto de nós. Sai um homem nos seus sessentas, pergunta em inglês de que nacionalidade somos, e assim começa uma das conversas mais interessantes desta semana.
Era holandês, recentemente reformado, e “a tentar ser livre”.
“É difícil,” garantiu-nos, “quando se faz parte do sistema.”
A conversa foi recheada deste tipo de pérolas. E não sei se por cansaço ou deslumbre, mas nenhum dos dois se lembrou de pegar na câmara e filmar o senhor. Uma semana a fazer isso em quase todos os “encontros”, e quando aparece esta espécie de anjo, nem uma reacção.
Ficámos a ouvir, portanto. Conversas de viagens, de família, de coisas que vale a pena lembrar. Coisas como “o melhor da vida é olhar para trás e dizer ‘consegui’. ‘Era difícil, custou-me, mas consegui’”.
Pouco antes do senhor aparecer, tinhamos estado a falar sobre isso. Atingir o topo daquela subida foi de um esforço extremo, e não tinhamos quaisquer hipóteses de desistir, ou de adiar. Quantas vezes, no dia-a-dia, deparamo-nos com subidas bem menos inclinadas, e vamos deixando para amanhã, para “um dia destes”.
Subimos a estrada porque tinha de ser. Demorámos horas e suámos litros, mas chegámos ao topo. E em jeito de conclusão, só tenho a sublinhar a ideia de que "as coisas que conseguimos com esforço são aquelas que nos sabem melhor."
Ou como nos dizia uma das irmãs do Carlos, quando ao fim de quase dois anos conseguimos fazer vingar um projecto de viagem: há que ousar para conquistar.
by Jorge





