quinta-feira, 22 de maio de 2008

Não aceites boleias de estranhos, não andes de bicicleta à noite, cuidado-com-isto, cuidado-com-aquilo... por muito que as nossas mães nos tenham avisado, desde pequenos, é irresistível chegar a este ponto da viagem e não fazer o que fizemos.

E o que fizemos foi esticar o polegar e pedir boleia, noite cerrada, à saída de Bojador, para “despachar” o mais depressa possível os 680km que nos separavam da Mauritânia. Não temos por hábito pedalar à noite, mas fomos às escuras até ao primeiro posto de polícia, a 6km da cidade, e aí nos instalámos à espera que uma alma caridosa nos levasse para baixo.

A noite passou devagar, a lua quase cheia atravessou o céu e mergulhou silenciosamente no mar. Houve tempo para dormir e tempo para conversar, para ouvir música, partilhar cigarros e beber chá. E quando um dos polícias conseguiu uma boleia para nós, já passava das duas da manhã. Bicicletas e bagagem arrumadas em cima do camião, que transportava ácido de baterias para Nouakchott – e nós lá para dentro, encaixados como sardinha em lata com os outros três viajantes.

Apresentações feitas, seguimos viagem. Avançámos 150km... em três horas... e parámos num posto de gasolina, para descansar. Bebemos café às escuras... o céu começou a clarear... e quando achávamos que íamos voltar à estrada,“Vamos dormir um bocadinho...”

Assim foi o resto do percurso. Acordámos às dez da manhã, conformados com a ideia de que tínhamos apanhado boleia do Camião Mais Lento do Sahara. E entre paragens de cinco horas, pausas para descanso e mais uma noite a dormir numa bomba de gasolina, demorámos ao todo 36 horas até chegar à fronteira. Trinta e seis, em extenso para que não haja dúvidas!

Foi uma viagem dentro da viagem. E depois dos últimos 40km numa estrada rodeada por minas e uma paisagem espectacular, eis-nos prestes a entrar num país novo, passaportes no bolso ansiosos por mais um carimbo, expectativas ao rubro porque outras histórias nos esperam.

by Jorge

1 comentário:

tenente reformado disse...

Rapazes!
Essa viagem foi uma verdadeira odisseia e teste à vossa paciência.
Até fiquei nostálgico e lembrei-me das idas para férias no Minho quando era garoto, os carros eram ronceiros e ainda não existiam auto-estradas.
Partiamos pela fresca e chegavamos era noite cerrada.
Muitas horas de caminho, muitas paragens para cenas de enjoo, piqueniques e sestas, carros atulhados de pessoas e dos mais insólitos objectos.
Também era uma grande aventura!
Abraços!