1º, porque as peripécias e pequenas irritações do último dia tinham deixado um sabor amargo no nosso paladar de memórias.
2º, porque Saint Louis recebeu-nos de braços abertos, abrindo caminho para a necessária reconciliação com o Senegal. O Sada convidou-nos para ficar à borla no quarto que ele ocupa na pensão. Conhecemos a Savannah, uma americana de chorar a rir que fala francês como os programas de tradução automática, e que nos levou a uma festa na Universidade de Saint Louis, onde outras dez americanas estudam e... digamos... trocam experiências culturais.
3º, porque nem sequer foi preciso voltar a Dakar para fazer os vistos. Ainda em Rosso, ligámos ao braço direito do Sr. Khaled, o Mohammedou, a explicar o que acontecera. Ele pôs a máquina a funcionar e menos de 24 horas depois, recebemos por e-mail a cópia de um fax desbotado, teoricamente “a solução de todos os nossos problemas”. A ver vamos, disse cada um para os seus botões, sem querer exteriorizar dúvidas. É que numa altura em que psicologicamente vamos bem avançados já a caminho de Lisboa, a última coisa que apetecia era ter de “dar um saltinho” a Dakar para tratar de papéis.
O fax desbotado não foi só “a solução de todos os nossos problemas”. Este milagre disfarçado de folha de papel A4 conseguiu proezas bem mais louváveis. Digamos que o dia em que tentámos pela segunda vez entrar na Mauritânia foi um dia diferente. O sol nasceu à hora prevista, mas mais brilhante que o costume. Resultado: as bouganvílias estavam mais coloridas que nunca, toda a gente sorria, a teranga estava no ar. As mulheres puseram as suas perucas mais bonitas, os pássaros cantaram músicas novas que ensaiavam secretamente há meses, as crianças riram-se mais alto ao ver passar bandos de borboletas. Uma brisa fresca rasgou o calor e causou arrepios a todos os que dormiam até mais tarde, despertando-os com um sorriso. Que dia lindo! ;)
Saímos para a gare e havia um sete place prestes a sair. Perguntámos-lhe o preço e ele atirou logo com a quantia certa, sem ser preciso regatear, evitando todo o drama que envolve tentar baixar o “preço de branco”.
Chegámos cedo a Rosso e atravessámos numa piroga que não teve de esperar por meia-África para sair. E ao desembarcarmos, ainda traumatizados com os acontecimentos recentes, qual não foi a surpresa ao darmos de caras com agentes da autoridade... sorridentes!
Mas o verdadeiro milagre estava para acontecer: a cópia do fax desbotado não só acendeu sorrisos em caras pouco habituadas, como quase provocou vénias e benditos-sejam. Desenrolaram-se tapetes vermelhos, apareceram pagens de corneta em punho, lançaram-se pétalas de rosas à nossa passagem. Até discursos foram feitos, lidos com intensidade ao som de tambores e aplausos, causando lágrimas nas vendedoras de peixe. E nem sequer tivémos de pagar 20€ pelo visto, como é previsto por lei.
Mas não nos queixámos. Chamem-lhe “vingançazinha”.
A nossa estrelinha pôs o Sr. Khaled, o Mohammedou e a ICAR no caminho desta viagem. Mas ainda hoje nos perguntamos como é que um homem de negócios com mil-assuntos para tratar, se dá ao trabalho de perder tempo com dois malucos que se montaram em duas pasteleiras até ao Senegal... só pelo prazer de ajudar a concretizar o projecto – e só porque gostou do espírito da coisa!
Ficámos uns dias em Nouakchott, muito bem acompanhados/apadrinhados/patrocinados pela ICAR, José Fachada e outros portugueses que trabalham aqui. Bebemos umas Sagres, tomamos a bica (Sical!), só faltou o bitoque. Não temos palavras, além de um óbvio Obrigado-com-O-maiúsculo, pela a forma como fomos recebidos.
E aqui estamos, em Nouâdhibou – de regresso ao “conforto do lar”. Entenda-se: a casa do Djallo, o nosso amigo guineense. O Joaquim voltou para o Algarve, foi pena o desencontro. E porque não há tempo a perder, vamos já embora para Marrocos. Damos um saltinho a Tarfaya, bebemos um chá em Guelmim e toca a andar, Inchalah.

