O deserto, como o imaginávamos, tarda a aparecer.
O Sahara das dunas e das miragens, das altas palmeiras no meio da areia infinita.
Será que existe?
O que é o deserto?
O deserto é, segundo o que pudemos constatar durante estes três dias, uma paisagem árida e aparentemente triste, feita de rochas e ocasionais arbustos, rasgada por uma estrada de alcatrão onde viajam camiões de matrícula marroquina, Mercedes azuis e duas bicicletas chamadas Mikelina e Penélope. Sim, há dunas. De vez em quando ao longe, às vezes em cima da estrada, de tamanhos vários mas nunca a perder de vista, daqui ao horizonte e do horizonte ao outro lado. O que, apesar de contrariar as minhas expectativas, não é necessariamente mau.
O deserto começa com um aviso: um sinal de trânsito triangular, branco por dentro e vermelho à volta, um desenho pintado a preto a lembrar o que toda a gente já devia saber: há camelos no deserto. Cuidado, não os atropelem. E surpresa ou não, há mesmo. Há camelos a atravessar a estrada, camelos no horizonte, outros na paisagem entre um lugar e o outro. Só a olhar – são animais curiosos, os camelos. Há de várias cores, muitos tamanhos e até com tipos de pelo diferente.
O deserto é areia e camelos, portanto – até aqui, nada de novo.
Mas também é lixo, por exemplo.
São latas de bebidas, pacotes de bolachas, embalagens várias. Atiradas pelos carros que passam. Sacos cheios de alguma coisa. Sandálias, ténis e camisas. Garrafas de vidro e garrafas de plástico, algumas cheias de um brilhante líquido amarelo… isso mesmo, exactamente!, já vi que não preciso de esclarecer do que se tratava o conteúdo. Mas deixo a dúvida que me inquietou durante alguns quilómetros: porquê o pormenor de fechar as garrafas? Se tinham tanta-pressa ou tanta-vontade, que nem sequer deu tempo para parar o carro… porquê o trabalho de enroscar a tampa?
Cadáveres de automóveis, em diversos estados de contorcionismo e decomposição.
Cadáveres de animais, em diversos estados de contorcionismo e decomposição.
by Jorge
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O meu Sahara é diferente do teu
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Al Aila
Antes de começar a pedalar para fora de Larache, e da sombra do “tout” sinistro que nos perseguia de cacetete em punho, fomos comprar dois objectos em falta: um fogareiro a gás e um fole para a minha buzina, que se tinha perdido (daqueles em borracha tipo vendedor de gelado). A buzina em Marrocos é muito mais importante que o capacete: aviso para ultrapassar carroças, carros parados, para assustar animais e acenar aos miúdos na estrada.
Na drogaria não tinham a borracha, mas sacaram de uma caixa pequena, cheia de pó, com uma reluzente buzina a pilhas, amarelo-ferrari e três tipo de som – ambulância, polícia, e outro histerismo indiferenciado. Todos com um som agudo e distorcido que entrava como setas no tímpano. Era tudo o que queria: dava nas vistas e oferecia um brinquedo foleiro à Mikelina. Montei a sirene a meio do guiador, estiquei o fio até à manete do travão, onde prendi o sofisticado botão encarnado. Por três euros passava a andar numa bicicleta tunning, e fiquei radiante. Quando o Jorge chegou dei-lhe um show de buzinadelas, ao qual ele respondeu com um sorriso torto. Até ao fim da viagem degladiámo-nos em argumentos acerca de qual a buzina mais cool.
Naquele dia pedalámos quarenta e seis quilómetros sob um céu que se ia carregando de cinzento, mas sem passar da ameaça. Desde Azeitão que viajávamos a seco, até ao final desse dia: uns chuviscos anteciparam-nos a paragem um par de horas. Aproveitamos um café como porto de abrigo.Tinha chegado a hora: íamos finalmente fazer campismo selvagem em Marrocos, algo que desde o início nos fazia levantar algumas questões. Será perigoso?
by Carlos
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Espera-nos um dia lixado
Dez de Março: o dia em que atravessámos o Parque Nacional de Doñana, pela praia, prometia ser um dos mais complicados da viagem. Na noite anterior à espectacular e arriscada façanha, fomos com a Astrid e o Ricky a um bar de Matalascañas, onde vários novos-amigos nos avisaram:
Só se pode passar na maré vazia!
Há algas escorregadias!
Rochas a tapar o caminho!
Areias movediças!
(e outros perigos e Adamastores.)
Guardámos mapas com palavras sublinhadas, cruzinhas e círculos desenhados. Fomos ao Google Earth e mostraram-nos as partes mais críticas do trajecto, bem como o lugar onde deveríamos esperar pelo ferry, para atravessar o rio Guadalquivir, a sul de Doñana. Do outro lado ficava Sanlucar de Barrameda, onde voltávamos a ter estrada. Guardámos o número do telemóvel do barqueiro, só por precaução. Consultámos na internet as tabelas de marés, vimos as previsões do tempo, do estado do mar e da direcção e força do vento. Preparámo-nos para a eventualidade de demorarmos o dia todo a atravessar o Parque, e até brincámos com a hipótese de não conseguirmos fazer o percurso num só dia. Por causa das marés. Pedalar na areia não é pêra-doce: e se tivéssemos de empurrar as bicicletas? E se a maré subisse e nos obrigasse a parar várias horas? E se as autoridades nos apanhassem a acampar? Não se pode montar tenda no Parque Natural de Doñana!
“Espera-nos um dia lixado”, concordámos.
by Jorge
Exclusivo! Exclusivo!
Hoje à tarde vamos publicar, em exclusivo, uma"passagem" do livro. Para aguçar o apetite!
