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terça-feira, 24 de junho de 2008

Regresso a Rosso

Já não temos que arrumar o pesado estaminé em alforjas e sacos. Atingimos a condição de chique-travellers e agora “fazemos as malas”. Ok, não são bem malas – mas uns sacos desportivos de marca pirateada, bem rufias, que comprámos num mercado em Dakar.

Enchemos os “Welson” de tralha, memórias e blocos perfeitos de roupa engomada, até ficarem a rebentar pelas costuras e pelo fecho-eclair chinês, que se fecha dum lado e abre do outro – e assim nos despedimos de Dakar. Arrancámos para Saint Louis, para uma breve noite – a primeira de muitos “regressos” até Lisboa – e anulámos o negócio das bicicletas com o Sada, explicando-lhe o irrecusável Happy End da Mikelina e Penélope.

Siga para a Mauritânia.

Estava tudo calculado: partida ao final da manhã, autocarro para Rosso, fronteira ao princípio da tarde – muito antes da hora de fecho, às 18:00 – e depois um táxi até Nouâkchott, onde nos espera o Mohammedou. O Sr. Khaled fez questão de nos apoiar em todo trajecto da Mauritânia (somos chique-travellers ou não?).

Do plano à acção – eis o que aconteceu: na estação de autocarros de Saint Louis, decidimos ir num minibus em vez de nos espremermos num sete place. Parte quando? Tout suite, monsieur! Ainda é meio-dia... temos tempo… mas quanto? É que aqui o tempo não usa relógio – “já a seguir” é quando o autocarro encher.

Dos 15 lugares, supostamente só faltam 4. Não deve demorar.

Duas horas depois. Mudámos de ideias. O autocarro afinal só tinha dois ou três passageiros – fomos enganados. Decidimos ir num dos sete place que partem espremidos. Mas que partem a toda a hora. Pedimos o dinheiro de volta, explicando (mais uma vez) que tinhamos de estar em Rosso antes da fronteira fechar. “Non! Vous doit attendez, on vas partir tout suite!”

Pela primeira vez na viagem, puxámos pelos decibéis. A meio da discussão, já com azias de roubo, decidimos ir até às últimas consequências e chamar o Senhor Polícia que estava à entrada da estação.

“Senhor Polícia, pode ajudar-nos?”

“Bien sur!”

Vem connosco ao local do crime, reflete a ocorrência, pisca o olho aos amigos do autocarro e começa a disparar de sua justiça com gritos, perdigotos e uma cascata de suor na testa.

Tanto gritou, o Senhor Polícia, que pouco mais entendemos além de um categórico e irónico “C’est la concurrence! Le client est le roi”.

“Merci Sr. Polícia vous être trés gentil!”

Regra número 1: não sacar da nota antes do tempo; regra número 2: não pedir ajuda à polícia. Riram-se os senegaleses de nós, e nós de nós próprios. E como o nosso limite é de dinheiro e não de tempo, resolvemos não perder o que já tínhamos desembolsado – ou seja, tivemos de ficar à espera que o minibus enchesse.

Quase três horas depois, partimos. E uma vez que chegámos a Rosso muito depois das seis, ficámos a dormir num quarto alugado. Na manhã seguinte enfiámo-nos na primeira piroga para atravessar o rio para o outro lado da fronteira. Devoraram-nos os últimos Francos CFA – cada saco da Welson pagou por 4 passageiros – chique! Mas tínhamos a Mauritânia à vista, e estes últimos trocos não compensavam discussões matinais.

Adeus, Senegal!

Desembarcámos na Mauritânia de passaporte em punho.

“Le visa?”, perguntam-nos.

“On le fait ici!”

“C’est pas possible ici, seulement a Dakar.”

Sorriso amarelo. À vinda de Marrocos, tínhamos feito o visto na fronteira sem problemas. Começámos a calcular os euros que nos iam pedir. Taxas de urgência, impostos especiais, qualquer coisa do género. O esquema é sempre o mesmo: meter medo (para fazer o visto têm de voltar a Dakar), perder tempo, conferenciar muito, discutir, fumar um cigarro... e eis que um deles nos pede para o acompanhar.

Levou-nos para perto de uma pequena piroga... e quando achávamos que era a altura de sacar dos euros... toma lá os passaportes - ”vous retourner au Senegal!”.

Então e o suborno? Ó Senhor Guarda, um subornozinho nunca fez mal a ninguém. Tarde demais, a piroga já ia a meio do rio... de volta ao Senegal.

Chique-traveller sofre.

Penélope! Mikelina! Voltem! Já temos saudades vossas. Que arrogância, acreditarmos que a estrelinha estava connosco... afinal eram vocês!


(continua amanhã...)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Antes de qualquer consideraçao sobre o video desta semana, temos que fazer um agradecimento a uma pessoa muito especial. A Savannah é uma americana que conhecemos em Saint Louis, já no caminho de regresso a Lisboa. Porque encaixa numa data de ideias-feitas (preconceitos?) que normalmente temos dos americanos... mas por ter a rara capacidade de rir e gozar disso, foi uma das pessoas mais interessantes que conhecemos durante esta aventura. O agradecimento, porém, nao tem nada a ver com personalidades, preconceitos ou formas-de-estar-na-vida. O nosso obrigado é, digamos, musical - porque a banda sonora deste video é da exclusiva responsabilidade da Savannah. Foi ela quem propos as duas musicas que estao no video.

Quanto ao clip propriamente dito: tem algumas imagens de Dakar - como seria de esperar -, das comemoraçoes do dia de Portugal e da entrega das bicicletas à Etoile Lusitana; e é o primeiro, desde que saimos de Lisboa, a fazer um flashback de viagem. Achámos que este era o momento certo para ceder à nostalgia que já sentimos, de cada vez que vimos algum dos videos antigos.

Ao anonimo a quem um passarinho contou qualquer coisa sobre a entrada na Mauritania: é verdade, foi mais uma peripécia daquelas que ficam para sempre... afinal, nao é todos os dias que se fica "à porta" de um pais. Mas hoje temos o video da chegada a Dakar, que encerra a fase principal da viagem - e o regresso a Lisboa... começamos a contá-lo a partir de amanha.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Etoile Lusitana


10 de Junho, residência do Embaixador de Portugal em Dakar. 8 da noite, sopra uma brisa quente, o tilintar de copos confude-se com conversas em várias línguas. Celebra-se Portugal, Camões e as Comunidades.

Tudo começou com uma daquelas conversas típicas, copo de vinho branco numa mão, rissol de camarão na outra: o Filipe, amigo de um amigo nosso, ja tinha ouvido falar da viagem. Explicámos-lhe melhor o projecto, ele achou piada e ofereceu-se logo para ajudar no regresso a Lisboa. Queria dar-nos 300 euros... mas o projecto, explicámos – o projecto vive do “limite” que nós próprios impusémos.

(E depois de já termos declinado o convite de voltar de avião para Lisboa, a noite começava a revelar-se um tanto ou quanto frustrante – recusar ajudas em nome de um conceito...)

“A não ser”, disse o Carlos, “que queiras comprar as bicicletas e o equipamento. Iamos vendê-las a um amigo de Saint Louis, para ele alugá-las a estrangeiros...”

“...mas a tua oferta cobre a dele”, acrescentou o Jorge, “e podes fazer o que quiseres com as bicicletas.”

Estão a ver aquelas lâmpadas que aparecem a brilhar em cima da cabeça das pessoas, nos desenhos animados? O Filipe tem uma dessas!

Estrelinhas e lâmpadas à parte, vejam lá a coincidência: existe em Dakar uma escola de futebol chamada Etoile Lusitana, tutelada pelo Luís Norton de Matos e com a “benção” do José Mourinho. Um projecto arrojado, que vive de um sonho e da vontade enorme de o ver realizado – onde é que já ouvimos isto?

O Norton de Matos gostou da ideia do Filipe, combinámos assistir ao segundo jogo de Portugal todos juntos – e numa bela tarde solarenga, embalados em mais uma convincente vitória da Selecção Nacional, acertámos os detalhes desta delicada operação: a transferência de propriedade da Mikelina e da Penélope.

Na manhã seguinte, montámos nas bicicletas pela última vez. Atravessámos a cidade que durante tanto tempo era apenas um sonho. Bem real, agora: todos os cheiros, todos os sons, a confusão, o calor. Chegámos ao Estádio Leopold Sagor a suar em bica e um bocado cansados... mas satisfeitos com o que nos esperava.

O treino matinal da Etoile Lusitana tinha acabado e o Luís Norton de Matos estava à conversa com os futebolistas, que não faziam ideia do que ia acontecer. E então o Mister explicou: dois amigos portugueses tinham vindo de Lisboa com duas bicicletas (aplausos e vivas), e a escola tinha comprado as ditas, para as sortear entre os rapazes (gargalhadas, gritos de alegria, saltos de euforia).

E assim foi. O Filipe trouxe um saco com os nomes dos 43 jovens futebolistas – o presidente do clube tirou dois, à sorte, e leu-os. E o resto é o que se pode imaginar. Dois sortudos passam a vir para os treinos de bicicleta. Não há palavras.

Lá vão elas: a Mikelina e a Penélope, os capacetes, as alforjas e todo o equipamento incluído, no primeiro dia do resto das suas vidas. Esperemos que as tratem bem, vamos ter saudades das nossas meninas.

Fizemos 4000km juntos – 2200 a pedalar. Dormiram connosco nas tendas, partilharam ansiedades e alegrias, atravessaram 4 fronteiras, viram tudo o que nós vimos. Viajaram em cima de camiões, no porão de barcos e em pequenas pirogas. Não se queixaram muito – aliás, quase nada. Tantas foram as profecias, tantas as desgraças anunciadas, mas aguentaram-se.

Muitas pessoas que nos acompanham não sabem disto – e não queríamos tocar neste assunto até chegar a Dakar – mas no início da viagem houve alguém que lançou uma sondagem num fórum de BTT, e que basicamente punha em causa a qualidade das nossas meninas. 52% por cento, salvo erro, votou que nem à fronteira com Espanha chegavam.

Hoje podemos afirmar, com um sorriso que tem tanto de orgulho como de nostalgia, que a Penélope e a Mikelina passaram o teste com distinção. A contabilidade final de “amuos” fica-se em 6 furos (sendo que 4 foram nos últimos 3 dias), alguns raios partidos, substituição dos rolamentos e algumas afinações. Nada de especial.

Chegaram cansadas a Dakar – mas chegaram a rolar. E com um sorriso daqueles que ninguém pode tirar. Sim, são bicicletas de supermercado. Mas provaram que é possível realizar muito com poucos recursos. E é esse o nosso objectivo.


segunda-feira, 16 de junho de 2008

Cordelinhos





Futebol. Pizza. Exposições de Arte Contemporânea. Turismo. Almoçaradas. Discotecas. E no meio de tantas emoções urbanas, algum trabalho. Mas o que mais marcou os dias de Dakar foi o 10 de Junho, dia de Portugal e Camões.

Começou com a gincana do Centro de Lingua Portuguesa da Universidade de Dakar – uma das etapas era em casa do Embaixador de Portugal, onde os alunos tinham de preencher alguns dados acerca da bandeira nacional. Poucos minutos à conversa (em Português!) com estes jovens Senegaleses, e fomos nós os primeiros a aprender alguma coisa sobre a bandeira. Alguém por acaso sabe quantos besantes tem? Ou melhor ainda: o que são besantes?




Acompanhámos os estudantes até à Universidade, assistimos a peças de teatro na língua de Camões, trocámos ideias e endereços de email – e voltámos para a Embaixada de peito cheio, a cantarolar o hino.

Ao fim da tarde, a recepção: ministros, corpo diplomático, gente influente – e giríssima! A nata, pois claro. So faltava a tia Lilo. E no meio desta paisagem cintilante: nós. Os dois malucos que vieram de bicicleta de Lisboa – dizia o Sr. Embaixador quando nos apresentava a alguém. Será que vão reparar que temos as calças meio a desfarelar?

A recepção na residência do Embaixador de Portugal em Dakar foi mais uma agradável surpresa nesta viagem:

1.
Conhecemos os editores do jornal Le Soleil, um dos principais diários do Senegal – que nos desafiaram para uma entrevista. E na manhã seguinte, ainda a recuperar de uma longa peregrinação pela noite de Dakar, eis-nos a pedalar suados pelo trânsito, ultrapassando mini-autocarros mega-lotados, desviando deste buraco e daquele peão... o que as pessoas fazem para aparecer! ;)

2.
Também fomos “picados” pela TAP. Foi um daqueles momentos de alguma tensão emocional: recusar a oferta de voltar para Lisboa de avião, por muito convictos que estejamos em fazer o caminho de volta por nós próprios... deixa sempre na boca um travozinho...

3.
Outro contacto muito valioso foi o sr. Mohammed Khaled, um mauritano que é administrador da ICAR – uma empresa da área da engenharia que trabalha com portugueses na Mauritânia – e que ficou muito entusiasmado com o nosso projecto. Tão entusiasmado que pôs logo os seus contactos a funcionar, e em poucos minutos tinha passado ao estatuto de anjo da guarda / patrocinador da nossa passagem pelo “país de um milhão de poetas”.

4.
Também foi nesta noite que o destino das bikes levou uma reviravolta. Era suposto irmos com elas para Saint Louis, onde iam ser compradas pelo nosso amigo Sada, o sobrinho da dona do Cafe des Arts. As “nossas meninas” iam passar a ser alugadas aos hóspedes desta pensão – e como dizia ontem uma americana: por muito que possa soar a isso, não tem nada a ver com prostituição. Mas na recepção do 10 de Junho, a estrela voltou a brilhar, e desta vez com um brilho bem lusitano – encontrámos o final perfeito para a Mikelina e a Penélope.

5.
O Jorge ainda encontrou uma prima. O que não surpreendeu minimamente o Carlos – que, aliás, já estranhava o facto de ainda não nos termos cruzado com nenhum dos 328 primos.

6.
Foi também na recepção que conhecemos seis simpáticas enfermeiras canadianas, com quem fomos explorar a mui-famosa noite de Dakar, depois de quase-quatro meses em jejum, no que diz respeito a saídas.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vamos por partes

Parte 3 (de 3)
Bienvenu a Dakar

Desde o Terreiro do Paço que fantasiávamos sobre Dakar - sobre o Momento da Chegada. Um placard enorme a dizer “Bienvenu a Dakar Jorge e Carlos!”, duas meninas no pódio a dar-nos um beijo nas bochechas vermelhas, champagne e uma chuva de confettis com as cores de Portugal.

Mas não: entrar em Dakar foi como fazer Cacém-Lisboa em hora de ponta, numa espécie de IC19 com tiques de Feira da Ladra, por duas faixas esburacadas e um tubo de escape roto enfiado nas narinas. O calor e o chinfrim de buzinadelas foram-nos abananando, e enquanto Dakar ficava mais perto, recordámos os bons tempos em que nos esparramávamos em enormes almofadas, horas a fio a ver oxigenar copinhos de chá.


Parámos numa bomba de gasolina, comprámos água gelada e rimos com o nosso estado. Tínhamos saído do Lac Rose impecáveis, com vários banhos tomados. Atravessámos o lago de piroga, para não fazer grandes esforços. Este era o grande dia - estava tudo pensado: banda sonora de Vangelis, uns planos fixes dos dois a pedalar, uma contagem decrescente com os km, e no fim uma corrida, com o tal placard de boas-vindas... acabava-se o fairplay (tudo simulado, claro), e era ver quem chegava primeiro.

Decidimos esquecer todas as fantasias. O Momento da Chegada... vamos recordar de outra maneira. Os dois a rir de cansaço, a pedalar freneticamente entre pequenos autocarros apinhados de gente, a desviar-nos de tudo o que se atravessava a nossa frente. Os braços com uma camada nova de sujidade, os olhos a arder, a garganta a arranhar, as narinas em fogo... o que é que interessa o Momento da Chegada?

Sim: já chegámos – e mesmo a tempo de ver Portugal jogar com a Turquia. Mas antes do jogo era preciso encontrar o sitio onde iamos ficar a dormir. E agora... a surpresa de que falávamos.

E que surpresa!

De repente, o nosso mundo de gordura e nódoas cobre-se dum branco tão alvo, cheiroso e desinfectado que quase ofusca. Depois de 3 meses e meio num assumido estado semi-selvagem, aterrámos na imaculada e protocolar residência do Embaixador de Portugal em Dakar!

Os pormenores de como fomos parar a casa do Sr. Embaixador ficam para outra historia. O importante hoje é agradecer a extrema hospitalidade com que fomos recebidos: convidados sem quaisquer reservas, por telefone - e recebidos de braços abertos. Ficámos para o Dia de Portugal, trocámos historias de viagem, aprendemos com a larga cultura e a experiencia de vida do nosso anfitrião. E ainda fizemos contactos muito importantes para o desenrolar deste nosso projecto.

Mas cada coisa a seu tempo, e hoje ficamos por aqui.

A estrelinha cintilou alto e resolveu fechar a viagem com chave de ouro. Mas falta o regresso. E falta conhecer o destino das nossas meninas - não se preocupem, que ficaram em boas mãos.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Vamos por partes

Parte 2 (de 3)
Não é bem côr-de-rosa

É "acôr-de-rosado", digamos. Dizem que depende da luz, das nuvens e de um sem fim de condições meteorológicas. E quando chegámos ao Lac Rose, o mítico lugar onde terminava o Lisboa-Dakar – até ao ano passado, pelas razões que se sabem –, a água era de um castanho rosado.

Foi o princípio do fim da viagem – e o terminar de um dos dias mais puxados dos últimos três meses e meio. Um pneu rebentado, outro furado. Raios partidos. Abutres a sobrevoar a estrada, num presságio que afinal não tinha nada a ver connosco – era só um cordeiro atropelado, mais um para somar ao interminável desfile de cadáveres e ossadas de animais na berma.

Vento contra. Vento a favor. Vento de lado. Calor – sempre muito calor. A roupa a colar-se à pele, a pele a colar-se à roupa, é difícil distinguir qual está mais suja.

A meio da tarde, quando finalmente saímos da estrada principal, foi com um sorriso que saudámos o caminho de areia que nos levaria ao lago. Comemos as mangas compradas na estrada a uma das 328 mulheres que veio ter connosco com baldes carregados de mangas, rimos com os miúdos a fazer caretas para a câmara, fugimos dos que nos pediam presentes, ou dinheiro, ou canetas; e sorrimos a quem nos pedia as bicicletas – muito se pede, por aqui.

Atravessámos manadas de vacas com saliva amarela-torrada, de tanto mastigar mangas. Empurrámos as bicicletas quando a areia tornava impossível pedalar. E quando finalmente chegámos ao Lac Rose, depois de intensos planos e prolongados detalhes sobre o tipo de filmagem que íamos fazer, já só queríamos um sítio para encostar as bicicletas, tomar um banho, dormir.

Noutra situação, quem sabe, poderíamos ter ficado desiludidos – não foi o caso. O lago não é côr-de-rosa, mas é de uma paz arrebatadora. E era mesmo o que precisávamos. Não sei se é de faltar tão pouco para chegar a Dakar, mas cada pedalada representa, ao mesmo tempo, um esforço e uma motivação maiores - enormes!

Quando chegámos ao Lac Rose, perguntámos a umas pessoas sobre onde ficar. Indicaram-nos um lugar, e imediatamente acrescentaram: “lá têm banho”. Será que se nota assim tanto?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Vamos por partes


Parte 1 (de 3)
Pffff!
Saímos de Saint Louis para a última etapa da aventura, algures entre o sonho do final e a estreia absoluta na África negra. As pernas empurram-nos sólidas, a paisagem verdejante traz-nos à memória (pelo contraste) a longa temporada no Sahara.

Um ou dois quilómetros depois: priiiiii!!! Um polícia lingrinhas a boiar no uniforme manda-nos encostar. Analisa nervoso as bicicletas e encontra o que quer: uma desculpa. Não temos os capacetes postos – desde o norte de Marrocos, note-se. E depois vem o B-A-Ba do polícia corrupto: mete medo (pode reter as bicicletas 48 horas), lança um número (20€ de multa), e faz um preço de amigo (8 €). No fim despede-se com um sorriso, “pela vossa segurança!”.

Seguimos com um turbo extra de irritação.

Vão aparecendo na berma da estrada as aldeias do Canal Odisseia, mas sem os comentários em “Português do Brásiu”: “palhotas” com paredes de argila, o piso das ruas em areia, grandes árvores de sombra à entrada, gente sentada à volta dos velhos, mulheres a carregar alguidares de água, cabras à solta, crianças a correr e a acenar, com sorrisos de orelha a orelha... monsieur, donnez-moi un cadeaux!

Ficamos numa dessas Aldeias-Odisseia, e depois de um quase-motim infantil à volta da Penélope e da Mikelina, acampamos em casa do chefe da aldeia. Bebemos chá, comemos duma malga com toda a família e discutimos um possível casamento com uma neta. Exigem 3000€, uma televisão e um telemóvel. Respondemos que na Europa as palavras de amor também entram para o negócio – não chegamos a acordo.
Arrancamos na manhã seguinte, depois de saborearmos uma manga que dava para 10 copos de sumo. Ainda estamos a empurrar as meninas na areia, ajudados por algumas crianças... quando... pffff!, a Penélope estraga as contas perfeitas! Tínhamos um furo cada, em toda a viagem! Mas nada que nos desanime: pedalamos todo o dia sob um calor abrasador, até montar as tendas sob a sabedoria dum estrondoso embondeiro.

Nova alvorada... e pffff!, a Mikelina não quer ficar atrás da companheira – e desta vez não tem um furo mas uma cratera na borracha do pneu Made-in-India, já careca e luzidio, que já vem dos dias de Sidi Ifni, em Marrocos. Fazemos uma reparação Made-in-Senegal com dois remendos e fita cola, andamos mais uns metros e... pffff!, a Penélope contra-ataca e marca o 3-2. Será que as nossas meninas já estão imbutidas no espírito do Euro? Será que sabem que vão ser vendidas? Também vamos ter saudades vossas.

Vamos mesmo, a sério.

Já está!

Chegámos sábado à tarde a Dakar, cobertos de sujidade, cansaço e alegria. Fizemos uma vénia à nossa estrelinha e agradecemos-lhe duplamente:

1. porque chegámos inteiros e com um monte de boas memórias para digerir o resto da vida;

2. porque chegámos mesmo a tempo de ver Portugal a estrear-se no Euro com uma bela vitória.

Acabaram-se os "Inchalahs" (se Deus quiser) e pudemos finalmente gritar o que o nosso amigo pescador nos ensinou em berbere: Salomon! (uma espécie de graças a Deus, que curiosamente tem o mesmo nome de um dos nossos "sponsors")

A travessia do Senegal foi toda feita a pedalar, tanto contra como a favor do vento. Apesar do calor peganhento, não foi difícil: nem joelhos nem costas se queixaram, porque a cabeça estava já em Dakar, a fazer um tchim-tchim com vinho tinto.

Os 4 dias finais foram férteis em peripécias, e por uma questão de "arrumação", vamos dividir o relato em 3. Desta vez, sem suspense - só uma surpresa, que revelamos no final, e que fecha esta aventura com chave de ouro (cravejada a diamantes e rubis, eheh).

Fica assim combinado:

Parte 1 (saída de Saint Louis, primeiros dois dias): hoje à tarde
Parte 2 (chegada ao Lac Rose, no terceiro dia): amanhã
Parte 3 (chegada a Dakar, no quarto e último dia): depois de amanhã

Quanto ao video, contamos tê-lo disponível já amanhã.

terça-feira, 3 de junho de 2008

48 horas depois (3/3)

Atençao: algumas passagens deste texto têm direito a bolinha no canto superior direito.

Parte 3 (de 3)
Estrelinha com bolinha

Domingo, 1 de Junho

Onde é que está a nossa estrelinha, agora que precisamos tanto dela?

...

Onde?

Ah... sim... aqui... no passaporte... vejam lá bem as datas, se faz favor... não terão feito confusão com os dias?

Eis a primeira surpresa do dia: o visto não acaba amanhã. Não resolve todos os nossos “problemas”, mas ajuda. Temos mais um dia – ou seja, afinal vai dar para pedalar até Diama, mesmo que o vento continue de lado. O orçamento é que se mantém, o que implica alguma ginástica para esticá-lo por mais 24 horas. Não é o fim do mundo, podia ser pior – se ao menos as dores passassem...

Dormimos um pouco a seguir ao almoço. E voltámos à estrada, depois de um grupo de míudos nos ter vindo pedir tudo e mais alguma coisa. Fizemos 12km – a paisagem, ao contrário do vento, está a mudar aos poucos. Há mais árvores, a areia das dunas é mais alaranjada, o deserto começa a ganhar vida.

Temos os “turbantes” berberes enrolados à volta da cabeça, para nos protegermos do calor. A berma da estrada está cheia de cadáveres de camelos, burros e cães, atropelados, em vários estados de decomposição.

Muito lixo.

E de repente...

De repente uma pickup abranda e pára ao nosso lado, o vidro automático abre-se silenciosamente e uma brisa fresca de ar condicionado acaricia-nos o rosto estupefacto. O estrangeiro que vai a guiar pergunta-nos:

“Vêm de onde?”

“Lisboa.”

“E vão para onde?”

“Dakar.”

“Eu também vou para Dakar! Entrem!”

(Obrigado, estrelinha.)

Arrumámos as bicicletas e a bagagem na parte de trás da pickup e cumprimentámos o senegalês e a mauritana que viajavam com o Fabriccio, um italiano que vive entre Milão, Casablanca, Nouakchott e Dakar. E arrancámos, pois claro. Ao som de UB40, a beber sumo de ananás e a comer M&Ms – que bela reviravolta!

Não fomos com o Fabriccio até Dakar, claro. Por muito que ele não compreendesse a pancada estranha de dois tugas a viajar com 1000 euros até Dakar, tivemos de declinar o convite, e descemos em Saint Louis.

Que viagem! Ao som de Talking Heads, James Brown e The Doors, vimos a paisagem a mudar radicalmente, à medida que atravessámos, literalmente a voar, os 115km que faltavam até Rosso, a principal fronteira com o Senegal. Sobravam apenas 80, numa estrada de terra batida, até Diama – uma fronteira mais pequena, mais calma, teoricamente sem agentes corruptos.

E que 80km! Por muito que nos digam que o Rally foi cancelado, nao nos convencem - o Lisboa-Dakar 2008 aconteceu, e nós estávamos dentro do único carro que completou a única etapa realizada. Rosso – Diama.

A contabilidade final, ao chegarmos à fronteira, era de 2 pássaros, uma cabra e um cão atropelados. A cabra sobreviveu sem ferimentos, foi só uma pancada – já o cão e os passaros não tiveram tanta sorte. A namorada mauritana ameaçou saltar borda fora umas 328 vezes, as bicicletas e as malas ameaçaram saltar borda fora umas 328 vezes... e entre buracos e saltos, saídas de pista e muitos sustos (uns 328!), chegámos à fronteira com o Senegal em grande, com público a aplaudir e tudo.

Antes de chegarmos a Saint Louis, ainda houve tempo para mais uma peripécia: umas crianças tinham montado uma barreira na estrada, com baldes e paus, de maneira a ninguém conseguir passar, seja em que sentido. Assim que o Fabriccio parou o carro, aproximaram-se uns 7 ou 8 putos. Quando ele lhes perguntou o que se passava, responderam que se queria atravessar, tinha de pagar portagem.

Reacção imediata: mandou-os a Um-Certo-Sítio e pé no acelerador, com uma gargalhada deixou para trás uma “portagem” desfeita e um grupo de miúdos boquiabertos.

É verdade! Caso não tenham reparado... foi tudo tão rápido e inesperado... já estamos no Senegal! E a parte do público a aplaudir era só a brincar.

Amanha publicamos o video desta semana, que inclui imagens da viagem de carro.