quinta-feira, 29 de maio de 2008


Acordei com o amanhecer do maior deserto do mundo, aos solavancos no maior comboio do mundo. Peguei no caderno e comecei a delinear esta descrição como uma imperdível e epopeica excursão ao coração do Sahara.

Ao meu lado dormia um mauritano (décima foto dos momentos) que assim que pregou olho começou a aquecer os seus pestilentos dedos do pé debaixo das minhas coxas. Não obrigado, e degladiei-me toda a noite numa insónia com forte cheiro a chulé. Levantei me para ir à casa-de-banho: não tem porta, água ou luz mas uma vista privilegiada para o deserto dum janelão sem vidros. O chá da manhã é servido por um velhote que montou o “restaurante” (foto 11) sobre uma manta de pó, fungava com ajuda de dois dedos enfiados nas narinas, lavava o tacho com esses mesmos dedos, e um bocado de água que saía preta ao primeiro contacto. As quatro geladeiras que guardavam os seus “frescos” mantimentos, a cada salto de carril espeliam potente cheiro, como se tivessem ficado esquecidas do Verão anterior, com os restos duma sardinhada.

Pode isto ser uma epopeica e imperdível excursão ao Sahara? Valeu a pena fazer um desvio à rota, gastar mais uma porção do nosso magro orçamento para sofrer tanta agressão nazal? Sem dúvida que sim! É que o único sonho que temos com cheiro a OMO é a primeira noite de sono em Lisboa. Em viagem os sentidos mudam e o que procuramos são filmes distintos, são as pessoas como elas vivem, e a noção de conforto vira-se, sem esforço, de pernas para o ar.

E ainda acabámos em casa do Sidi, no meio da sua família, a beber chá e esparramados por almofadas no chão, num dolce fare niente que abunda nestas paragens.

Com a luxuosa possibilidade de prolongar este repuxo de memórias por mais uns tempos, mesmo pondo em risco a meta dos 1000 euros, as nossas vontades decidiram em uníssono: vamos até Dakar!
by Carlos

8 comentários:

Anónimo disse...

já devias estar habituado a chulé...
:P

beijinhos e bom regresso!
o OMO cá vos espera!!

Anónimo disse...

rPfff!!!
Que pivete!
A descrição do smell é tão real como a do Saramago sobre o cheiro que se instalou no mundo no "Ensaio sobre a Cegueira" que estive a ler.
Beijos aos dois e continuem a deliciar-nos com a vossa escrita.
Tia M

Anónimo disse...

A meta dos mil euros não pode prejudicar a vossa viagem por mundos e gentes muito diferentes, e muito menos os “filmes” que partilham connosco.

Não se esqueçam que há gente disposta a uma vaquinha.

maria crítica

tenente reformado disse...

Rapazes destemidos!
Nem na tropa sofri uma agressão nazal dessas.
Mas como quem corre por gosto não cansa, continuem a animar-nos com as vossas aventuras que apesar de tudo são uma "lufada de ar fresco" para o pessoal que vos acompanha.
Abraços

Anónimo disse...

O cheiro emana das fotos!
Até aí vos convidam para ficar em casa. É de facto espantoso o acolhedor que são as pessoas.
Beijinhos
Mariana

Anónimo disse...

Hei gandas malukos!!! Força aí com voces...
Grande experiencia... espero por um livro editado por vos, para o ano ... :)

Abraço,
OMO_MAKINA

Joca Moreno disse...

Tá quase tá quase... com sorte ainda apnham mais um mega camionista e zás... deicdem ir até... à Cidade do Cabo.

Há que começar já a pensar na próxima viagem.

sugestão: Lisboa China de pasteleira com 150 euros por pessoa!

obrigado pela vossa referência nos amigos ao Gang do Frango assado.

estamos convosco!

Kikas disse...

Meu irmão, quando chegares já sabes que podes entregar a tua roupa lá em casa para recuperar aquele cheirinho a limpo que tu tanto gostas. Eu vou ter muito provavelmente é que evacuar o condomínio durante a operação! Estamos radiantes que continuem até Dakar, apesar das saudades e do gasto em velas e orações já se instalava uma certa nostalgia com o vosso regresso porque estamos habituados aos vossos relatos que nos tiram deste marasmo. Mil beijinhos e muitas saudades! Kikas