terça-feira, 24 de junho de 2008

Regresso a Rosso

Já não temos que arrumar o pesado estaminé em alforjas e sacos. Atingimos a condição de chique-travellers e agora “fazemos as malas”. Ok, não são bem malas – mas uns sacos desportivos de marca pirateada, bem rufias, que comprámos num mercado em Dakar.

Enchemos os “Welson” de tralha, memórias e blocos perfeitos de roupa engomada, até ficarem a rebentar pelas costuras e pelo fecho-eclair chinês, que se fecha dum lado e abre do outro – e assim nos despedimos de Dakar. Arrancámos para Saint Louis, para uma breve noite – a primeira de muitos “regressos” até Lisboa – e anulámos o negócio das bicicletas com o Sada, explicando-lhe o irrecusável Happy End da Mikelina e Penélope.

Siga para a Mauritânia.

Estava tudo calculado: partida ao final da manhã, autocarro para Rosso, fronteira ao princípio da tarde – muito antes da hora de fecho, às 18:00 – e depois um táxi até Nouâkchott, onde nos espera o Mohammedou. O Sr. Khaled fez questão de nos apoiar em todo trajecto da Mauritânia (somos chique-travellers ou não?).

Do plano à acção – eis o que aconteceu: na estação de autocarros de Saint Louis, decidimos ir num minibus em vez de nos espremermos num sete place. Parte quando? Tout suite, monsieur! Ainda é meio-dia... temos tempo… mas quanto? É que aqui o tempo não usa relógio – “já a seguir” é quando o autocarro encher.

Dos 15 lugares, supostamente só faltam 4. Não deve demorar.

Duas horas depois. Mudámos de ideias. O autocarro afinal só tinha dois ou três passageiros – fomos enganados. Decidimos ir num dos sete place que partem espremidos. Mas que partem a toda a hora. Pedimos o dinheiro de volta, explicando (mais uma vez) que tinhamos de estar em Rosso antes da fronteira fechar. “Non! Vous doit attendez, on vas partir tout suite!”

Pela primeira vez na viagem, puxámos pelos decibéis. A meio da discussão, já com azias de roubo, decidimos ir até às últimas consequências e chamar o Senhor Polícia que estava à entrada da estação.

“Senhor Polícia, pode ajudar-nos?”

“Bien sur!”

Vem connosco ao local do crime, reflete a ocorrência, pisca o olho aos amigos do autocarro e começa a disparar de sua justiça com gritos, perdigotos e uma cascata de suor na testa.

Tanto gritou, o Senhor Polícia, que pouco mais entendemos além de um categórico e irónico “C’est la concurrence! Le client est le roi”.

“Merci Sr. Polícia vous être trés gentil!”

Regra número 1: não sacar da nota antes do tempo; regra número 2: não pedir ajuda à polícia. Riram-se os senegaleses de nós, e nós de nós próprios. E como o nosso limite é de dinheiro e não de tempo, resolvemos não perder o que já tínhamos desembolsado – ou seja, tivemos de ficar à espera que o minibus enchesse.

Quase três horas depois, partimos. E uma vez que chegámos a Rosso muito depois das seis, ficámos a dormir num quarto alugado. Na manhã seguinte enfiámo-nos na primeira piroga para atravessar o rio para o outro lado da fronteira. Devoraram-nos os últimos Francos CFA – cada saco da Welson pagou por 4 passageiros – chique! Mas tínhamos a Mauritânia à vista, e estes últimos trocos não compensavam discussões matinais.

Adeus, Senegal!

Desembarcámos na Mauritânia de passaporte em punho.

“Le visa?”, perguntam-nos.

“On le fait ici!”

“C’est pas possible ici, seulement a Dakar.”

Sorriso amarelo. À vinda de Marrocos, tínhamos feito o visto na fronteira sem problemas. Começámos a calcular os euros que nos iam pedir. Taxas de urgência, impostos especiais, qualquer coisa do género. O esquema é sempre o mesmo: meter medo (para fazer o visto têm de voltar a Dakar), perder tempo, conferenciar muito, discutir, fumar um cigarro... e eis que um deles nos pede para o acompanhar.

Levou-nos para perto de uma pequena piroga... e quando achávamos que era a altura de sacar dos euros... toma lá os passaportes - ”vous retourner au Senegal!”.

Então e o suborno? Ó Senhor Guarda, um subornozinho nunca fez mal a ninguém. Tarde demais, a piroga já ia a meio do rio... de volta ao Senegal.

Chique-traveller sofre.

Penélope! Mikelina! Voltem! Já temos saudades vossas. Que arrogância, acreditarmos que a estrelinha estava connosco... afinal eram vocês!


(continua amanhã...)

5 comentários:

Joana Arede Neves disse...

ahahahaha o q ja me ri com as vossas caras... coitados pá!

Mas era pior se fosse a ida pa dakar, terem de voltar pa outro lado

Anónimo disse...

Bem vindos de novo à civilização !!!
Tenham calma
Abraços
007

Joao disse...

Je pense que ainda assim, vouz cest tres afortuné!

Abracius, e já não digo boas pedaladas. Um simples boa viagem!

Junior

Sónia disse...

Não desanimem... faz parte da aventura ;)

Um bom regresso!!!

zefachada disse...

Subornos, ahahah!!!! Então pá, vocês pensam que a policia daqui é corrupta como em portugal???
«Olha, olha os branquinhos à armarem-se em espertos!!!» Pimba, biqueiro de volta ao Senegal...
O que imagino, deve ter sido um grande castigo... Adiar por mais um dia a vossa entrada na Mauritânia por mais uma noite de extase em St. Louis!?
Será que não foram vocês que pediram, por favor ao policia, para não vos deixar passar!? Eu faria-o!!!!
Abraço
Jose Fachada